quarta-feira, 4 de março de 2009

Sonetos que não são




Aflição de ser eu e não ser outra.

Aflição de não ser, amor, aquela

Que muitas filhas te deu, casou donzela

E à noite se prepara e se adivinha



Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha

Que te retém e não te desespera.

(A noite como fera se avizinha.)



Aflição de ser água em meio à terra

E ter a face conturbada e móvel.

E a um só tempo múltipla e imóvel



Não saber se se ausenta ou se te espera.

Aflição de te amar, se te comove.

E sendo água, amor, querer ser terra.

(de Hilda Hilst,Roteiro do Silêncio(1959) - Sonetos que não são - I)

2 comentários:

Lulih Rojanski disse...

Ara, acho a Hilda doce e completamente louca. Ela é linda! Feliz dia da mulher, minha amiga.

Márcia Corrêa disse...

Ela diz o que a gente gostaria de dizer e nem sempre consegue. Bjs!