terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Uma tucuju entre duendes e bruxas de Floripa

Escrevi este texto depois de uma viagem deliciosa por Florianópolis no ano de 2005. Hoje, revisitando meus guardados eu o encontrei e resolvi publica-lo no blog. Este era um momento de muita felicidade.



Não é fácil para uma amapaense típica que tem o regionalismo como bandeira admitir que se apaixonou por outro estado brasileiro, mas devo confessar aos meus leitores que Florianópolis é maravilhosa! Para que todos entendam como iniciou essa paixão, vou contar a história desde o inicio. Sai de Macapá para Brasília no dia 22 de janeiro com a responsabilidade de acompanhar minha irmã Auricy - que estava passando por alguns problemas emocionais - e minha sobrinha Rebeca em uma viagem de carro até Florianópolis.

A idéia não me agradava muito, pois tenho pavor de viagens de avião, mas o gosto pela aventura falou mais alto. Antes de sair do Amapá e por estar acostumada com a nossa preocupação com o meio ambiente, me preparei para enfrentar os 1.600 quilômetros que separam os dois estados e encontrar muita poluição e o meio ambiente completamente destruído.

Pegamos a estrada em direção a Floripa no dia 25 e depois de rodarmos 800 quilômetros de carro chegamos a Limeira (SP) por volta de 22h. A cidade, na opinião de minha irmã, é pequena, em minha opinião é enorme. Entramos em Limeira procurando o hotel onde passaríamos a noite e logo descobrimos que não seria fácil. Rodamos por 20 minutos e, finalmente, admitimos que estávamos perdidas e resolvemos pedir informações.

Um pouco mais a frente abordamos um rapaz que, gentilmente, se ofereceu para nos levar a um hotel que, segundo ele, era barato e muito confortável. Para chegar ao hotel teríamos que segui-lo, primeiro até o posto de combustível, pois precisava abastecer, em seguida até o hotel. Depois de algum tempo começamos a achar a situação estranha, o rapaz era tão gentil que parava nos semáforos para falar o quanto o hotel era bom. No posto de gasolina a desconfiança falou mais alto: e se o cara fosse um bandido? Desistimos de seguir o rapaz e mudamos o caminho.

Decididamente estávamos mais perdidas que nunca, três mulheres em uma cidade estranha, presas dentro do carro e morrendo de vontade de fazer xixi. Descobrimos que paulista não sabe dar informações, pois não conhece a diferença entre esquerda e direita. Passamos um grande sufoco porque todas as ruas que pegávamos nos levavam para uma mesma esquina, onde de um lado tinha uma pequena igreja e do outro uma placa dizendo Avenida Boa Morte. No auge do desespero começamos a rir e resolvemos escutar a Rebeca que finalmente conseguiu dizer que conhecia o caminho e nos levou com segurança até o hotel.

No dia seguinte, depois de um café da manhã de rainha e refeitas do cansaço, partimos em direção a Juquiá, uma pequena cidadezinha de São Paulo, onde pegaríamos a estrada para Curitiba e depois para Santa Catarina. Meu vicio de fumante inveterada fez com que eu pedisse para minha irmã parar para tomarmos um café em uma dessas lanchonetes de estrada e foi lá que descobrimos que, a irresponsabilidade do Governo Federal, somada à falta de manutenção, tinham provocado a queda de uma ponte na Br 116, entre Curitiba e São Paulo. Teríamos que fazer um desvio por Capão Bonito, isso significava um aumento de 300 quilômetros em nosso percurso. Sem opção, seguimos nosso caminho. A viagem transcorreu tranqüila e na tarde de quinta-feira Auricy e Rebeca me mostraram a razão de estarem tão apaixonadas por Santa Catarina.


O Estado de Santa Catarina

Entramos em Santa Catarina pela Br 101 e a partir desse ponto o mar passou a ser nosso companheiro de viagem. Fui descobrindo aos poucos um estado exuberante, com o meio ambiente preservado, casas que lembram a arquitetura alemã e pessoas simpáticas e cordiais. Paramos em Itajaí, mas precisamente na praia de Cabeçudas, para um almoço com muito peixe e salada verde. Foi em Cabeçudas que tive meu primeiro contato com o mar e descobri que ele é mais assustador do que o nosso Rio Amazonas. Depois de passarmos rapidamente por Balneário Camboriu, seguimos para Floripa.


Finalmente Florianópolis

Floripa me surpreendeu, não é a toa que é considerada um dos principais pontos turísticos do Brasil. Com uma população de 300 mil habitantes, seus 436.5 quilômetros quadrados de área são formados por uma ilha oceânica e uma parte continental. Os primeiros habitantes de Florianópolis foram os índios tupi-guarani que, com a chegada dos europeus à ilha no século XVII, passaram a ser chamados de carijós. Foram esses europeus que trouxeram as doenças que iniciaram o extermínio da nação indígena. Foi nessa época também que o bandeirante Francisco Dias Velho chegou na ilha e deu inicio a fundação da cidade. Em 1893, já batizada de Nossa Senhora do Desterro, assumiu a condição de capital de Santa Catarina. Algum tempo depois seu nome foi trocado para Florianópolis em homenagem a Marechal Floriano Peixoto, líder da Republica e que até hoje é renegado por alguns habitantes da ilha por ter ordenado o fuzilamento de várias pessoas que foram consideradas inimigas da Republica durante a Revolução Federalista. Floripa é uma mistura de moderno e rústico, urbano e rural. Andando pela cidade pude observar imensos prédios de arquitetura moderna e ao lado um pequeno sitio com cavalos e bois pastando. Os contrastes podem ser observados comparando o centro da cidade, que é moderno e cosmopolita, com o interior que ainda preserva muitas comunidades rurais que seoriginaram da colonização Açoriana no século XVIII. Quem visita a ilha tem à disposição mais de 40 praias com características diferentes - pequenas baías com praias tranqüilas, praias com ondas grandes, praias populares com várias opções de lazer e vilas rústicas de pescadores. Com uma grande diversidade de ecossistemas, é um paraíso para os amantes da natureza, mergulhadores, pescadores, estudantes, pesquisadores e turistas. Essa mistura de tribos propiciou uma mistura cultural interessante que vale a pena conhecer.

Floripa das bruxas e duendes

A historia de Florianópolis se mistura com as brumas das lendas de seres imaginários como os boitatás, lobisomens, duendes, fantasmas, feiticeiras e bruxas que arrastam suas sinas nas noites pelas matas e praias da ilha.Essas lendas e mitos do imaginário popular ainda estão presentes nos habitantes de Floripa. São lendas que falam de reuniões de bruxas, bruxas que atacam pescadores, que roubam barcos, que dançam dentro das tarrafas de pescarias e passeiam de vassoura nas praias.Esses seres imaginários são tão presentes que é comum se ver estatuetas de bruxas e duendes ornamentando os jardins, jovens que ostentam pentagramas tatuados nas costas, mãos e testa, lindas garotas com brincos, colares e pulseiras em formato variado mostrando bruxinhas, duendes e lobisomens.

Os antigos habitantes de Floripa contam lendas sobre dois tipos de bruxas, a terráquea, bruxas por opção própria, que até hoje são encontradas na Ilha, e a Espiritual, que é predestinada por ser a primeira ou a sétima filha de um casal sem filhos homens. De acordo com a tradição, para a maldição ser evitada, a irmã mais velha tem que batizar a caçula.

Quando o boitatá aparecia para alguém, a pessoa que o avistava deveria chamar outra que estivesse próxima e dizer: - Zenobra trás a corda do sino mode amarrar o boitatá que ele está por aqui - e o animal fugia imediatamente. Já os lobisomens apareciam em muitas formas. A transformação, segundo os ilhéus, era assim: o homem que iria se transformar procurava um lugar onde um animal qualquer estava deitado, expulsava o animal e se deitava na quentura dele. Assim pegava a forma do animal que estava deitado.

Feitiço do amor

Os habitantes de Floripa juram que tudo que contam sobre suas lendas é real. Verdadeiro ou não, nunca vou poder comprovar. O que pude comprovar é que as bruxas terráqueas ainda fazem seus feitiços pela Ilha e são muito parecidas com os nossos benzedeiros. Essas bruxas são do bem e foi uma delas que me passou "a receita de seu feitiço para conhecer o homem dos seus sonhos" - quando expliquei que já era casada com o homem dos meus sonhos, ela respondeu: - Faça o feitiço para se assegurar que o seu casamento vai durar para sempre, mas não esqueça, você tem que ter fé, do contrario o feitiço desanda.Como sou uma mulher que não acredita em feitiço, resolvi passar a receita para os leitores para que, se quiserem, experimentem. Boa sorte a todos!

Comece o feitiço nos três últimos dias da lua minguante. Colha cuidadosamente alguns ramos da sua arvore favorita, pedindo antes licença para a mãe das arvores. Em casa abra um pano de algodão virgem, do seu tamanho, sobre o chão. Deposite os ramos sobre o pano, reservando apenas um deles, de tamanho pequeno. Deite-se nua sobre os ramos e coloque o galho menor sobre o plexo cardíaco. Lembre-se de seus antigos amores, um por um. Traga as lembranças de cada um deles com a inspiração e deixe-os ir com a expiração. Repita o procedimento por mais dois dias. No último dia queime os ramos e despeça-se das energias que não lhe interessam mais.Antes de a lua nova iniciar sua influência sobre a terra, tome um banho de cachoeira mandando embora todas as mágoas antigas. Em seguida se deite ao sol invocando as influências de Coaracy, a mãe do sol. Depois coloque um pouco de óleo de urucum na palma da mão e faça movimentos vindos do plexo solar para o plexo cardíaco, pedindo para que a deusa mãe libere sua energia amorosa. Durante a lua crescente corte a cada dia um fio do seu cabelo e coloque-os próximo ao seu travesseiro. Guarde junto desses fios um filtro dos sonhos.Uma noite antes da lua cheia, queime breu e cumaru em uma vasilha de ferro, invoque a mãe da doçura sonhável, Kumacy. Coloque suas mãos sobre o coração e imagine uma nuvem rosada que se aproxima e lhe envolve. Quando sentir que a névoa tomou o seu corpo, irradie-a em torno de você. Nesse momento imagine que tem em suas mãos uma grande folha verde com uma mancha vermelha no centro e que essa folha se desprende de sua mão e mescla-se ao seu coração. Visualize-se em um campo aberto e dê um giro de 360º, abra os braços e diga para a lua. - Eia Cy, eia Cairé, mostre nesta noite ao coração do meu prometido amor o meu caminho. Repita por nove vezes, coloque os fios de cabelo em uma agulha fina e passe-os pelo filtro dos sonhos. Pendure o filtro perto da sua janela. Antes de dormir peça a Kerpinha, mãe dos sonhos, que lhe traga os sinais necessários para que você reconheça o seu amor.

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